Em um regime democrático, o instrumento da eficácia simbólica [Bourdieu 2000] é a regra, a lei. A burocracia - de certa forma, um pré-requisito da democracia - deve estabelecer todos os procedimentos, de forma que qualquer indivíduo tenha condições de usufruir, em igual condição dos mecanismos de gestão disponibilizados pelo sistema [Weber 2004]. Tomando o episódio sobre o qual estou me debruçando, se fôssemos imaginá-lo sob o prisma de uma gestão democrática, em algum momento nos depararíamos com uma votação para decidir se aquela ferramenta seria usada ou não. Mesmo que não chegássemos a uma votação, estariam definidos os meios necessários para que se chegasse a uma.
A questão do Launchpad não ser software livre foi de extrema importância para a condução da questão, mas dificilmente o resultado final teria sido diferente porque simplesmente não é assim que a Debian decide as coisas. Durante todo o período de observação, mais de uma vez sugestões interessantes foram lançadas nas listas de discussão, algumas vezes eu mesmo lancei. Em mais de uma ocasião a sugestão simplesmente não ecoava, ou seja, não recebia nenhum comentário de ninguém - O que não necessariamente significa que não era uma idéia boa - em outras ocasiões a sugestão recebia críticas técnicas, mas uma boa parte das vezes, aquele que sugeria era desafiado a realizar.
Tomando novamente a tradição libertarian (seção 3.9), a negação de um aparelho burocrático, tem, em primeiro lugar a importância de negar o controle [Foucault 2004] da coletividade sobre os indivíduos, da maioria sobre as minorias [Mill 1964], ou ainda controles promovidos por elites [Schumpeter 1943]. É importante perceber que um conjunto de mecanismos formais, que normalmente podem ser encontrados em uma entidade democrática, não estão presentes na Debian. Mecanismos formais que permitiriam que qualquer indivíduo - igual aos olhos da lei - teria meios para exercer a sua participação na governança ou que permitiriam a ``elites'' devidamente legitimadas assumir a governança.
No entanto, os desenvolvedores, equanto indivíduos, têm completa autonomia para realizar as suas atividades de acordo com o seu próprio julgamento. As regras escritas não têm a função de regular a ação individual - uma vez que as regras definem aquilo que não está mais em disputa - assumindo um papel muito mais de documentação das questões que já foram resolvidas. É claro que situações novas podem gerar a necessidade de alterações nessas regras, e essas alterações são feitas, novamente, com base naquilo que a prática consolidou.
Reunidas todas essas informações, acredito não ser mais necessário afirmar a influência do ``laissez faire, laissez passer'' no funcionamento da Debian, que de forma coerente, expressa a sua proximidade com o libertarianism. O que é preciso perceber é que ao mesmo tempo que o estado perde o papel de controle do indivíduo, ele precisa perder o papel de provedor do bem-estar. O Estado não mais interfere na vida dos indivíduos, seja para controlar suas ações, seja para garantir direitos.
Nesse sentido, a Debian proporciona um ambiente que favorece o empreendedorismo. Você não só tem a possibilidade de investir nas soluções nas quais você acredita - e para isso vai poder utilizar toda a infra-estrutura do projeto para testá-la - como se você não tomar a inciativa de fazer, simplesmente não irá acontecer. Você não pode reclamar ao governante a necessidade que isso seja feito, ``want a bug fixed, please send a patch''.
Acredito que já consegui mostrar que, para a Debian, o conhecimento técnico é um ``capital social'' [Bourdieu 2000] importante, e para o empreendedor na Debian é algo fundamental. Ele não tem meios para fazer-se representar como uma elite [Schumpeter 1943], nem mesmo para estabelecer ``grupos de pressão''. A única arma dele é o ``fazer'', o ``realizar''. Uma vez que determinado empreendimento seja considerado importante, é possível que mais pessoas se concentrem naquele projeto específico. No entanto, o risco é completamente daquele que empreende.
Mas também não podemos nos esquecer que um ``capital social'' [Bourdieu 2000] não é um fim por si só. Ele apenas representa a distinção, é uma forma de expressar as relações de poder em determinado ``campo''. Se o conhecimnto técnico na Debian aparece como um mecanismo de distinção, se não há um empenho efetivo por parte dos desenvolvedores mais experientes em facilitar a inclusão de desenvolvedores menos experientes é por que aí se mostra um mecanismo de controle [Foucault 2004] importante que se imprime sobre os que não estão completamente inseridos.
Antes de prosseguir com essa questão, quero retomar um ponto anterior, que acredito colaborar na compreensão do ponto onde vou chegar. Quando se fala de ``laissez fare'', é praticamente obrigatório trazer a crítica que se faz em relação aos possíveis desequilíbrios. O argumento da ``Mão Invisível'' de Adam Smith de fato não fornece uma base suficientemente sólida para acreditarmos que não haverá uma constante acumulação e centralização de poder, no entanto, a pesquisa de campo me força a refletir mais um pouco sobre essa questão. Uma vez que temos um ambiente no qual o empreendedorismo é favorecido e que esse empreendedorismo não é regulado de nenhuma forma, que elemento atua como ``Mão Invisível'' na Debian? Responder essa questão também me levou a responder a questão anterior.
Gostaria de chamar atenção, nesse momento para o fato de que qualquer desenvolvedor Debian tem acesso ao repositório como um todo de forma que qualquer desenvolvedor pode fazer a submissão de uma versão nova de qualquer aplicativo, mesmo aqueles sobre os quais ele não tem responsabilidade. Da mesma forma, ele tem acesso a um conjunto de máquinas do projeto, onde ele poderia executar quaisquer atividades, mesmo que não fosse para uma atividade relacionada. Esse desenvolvedor ainda tem acesso ao único canal privado de comunicação dos desenvolvedores, tendo acesso a informações sensíveis em relação à vida particular de alguns desenvolvedores, ele poderia até divulgar essa informação sem ninguém saber que foi ele quem divulgou.
O que é surpreendente, para quem apresenta a crítica ao laissez faire, no final das contas é que ele não faz. Ele não se utiliza das máquinas do projeto para fins não apropriados, ele não divulga as informações privadas dos desenvolvedores e ele não submete furtivamente uma versão de um aplicativo o qual ele não é o responsável. A Debian substitui praticamente todos os mecanismos de controle dos indivíduos, praticamente todos os mecanismos formais de gestão por um elemento fundante: A Confiança. É claro que a Confiança é um pré-requisito fundamental para gestão, qualquer que seja o modelo, mas é preciso reconhecer que a Debian - e até um certo ponto, a comunidade software livre como um todo - de forma inovadora estabelece a confiança como um mecanismo central de sua gestão.
O empreendedorismo não é regulado, porque a partir do momento em que os desenvolvedores confiam um nos outros, eles acreditam que o empreendimento a ser realizado vai, no mínimo, estar de acordo com o Contrato Social e com a Definição Debian de Software Livre. O desenvolvedor faz, e confia que os outros também façam, uma escolha ética consonante com os documentos de fundação.
No entanto essa confiança não se estabelece gratuitamente, é necessário que a pessoa se exponha publicamente com sua identidade real, é preciso que você conheça pessoalmente outro desenvolvedor, para ter a sua identidade validada, é preciso que você mostre que consegue dominar as habilidades técnicas, ou seja, que você dedicou-se como somente alguém que compartilha os mesmos valores, que pode fazer a mesma escolha ética, se dedica.
Quero trazer aqui o texto apresentado a um desenvolvedor que está para advogar pela entrada de um novo desenvolvedor, durante o ``New Maintainer Process''66:
You should only advocate someone if you think they are ready to be a developer. This means that you should have known them for some time and can judge their work. It is important that prospective developers have been working in the project for some time, by maintaining a package, helping users and sending patches. They should be familiar with Debian's special ways of doing things and have contributed some work to the project - if you think they should be a Debian Developer then go ahead and recommend them.[TRADUÇÃO:Você só deve advogar alguém se você acha que ele está pronto para ser um desenvolvedor. Isto significa que você já deve conhecê-lo por algum tempo e possa julgar seu trabalho. É importante que o candidato a desenvolvedor esteja trabalhando no projeto há algum tempo, em manter pacotes, ajudar usuários e enviando patches. Ele deve estar familiarizado com as maneiras especiais da Debian de fazer as coisas e deve ter contribuído algum trabalho para o projeto - se você acha que ele deve ser um desenvolvedor Debian então vá em frente e recomende.]
Na verdade, o que acaba estando dito aqui é: ``Você confia nessa pessoa?'' Ou então: ``Você daria a senha do seu computador para ela?'' Quanto a esse ponto, quero tomar uma entrevista que realizei com Otávio Salvador67. Quando conversávamos sobre a questão do processo de entrada de novos desenvolvedores:
Acho que se voce eh um membro deve se envolver o maximo possivel (...) tem devels que entram rapidamente pelo NM e outros nao. Muitos sao tecnicamente bons porem nao sao bem vistos pelos DAMs e ai ficam mofando. (...) mas tem tambem a questao da colaboracao (...) eu fiquei pouco tempo (...) mas eu colaborava de todas formas possiveis
Como eu disse anteriormente, compreender que a confiança é um elemento central na gestão da Debian vai nos ajudar a entender como se realiza o mecanismo de controle [Foucault 2004] sobre os desenvolvedores menos experientes. Reduzir o esforço necessário para que usuários novatos dominem as ferramentas não ajudaria nem a Debian e nem ao próprio novato, que continuaria tendo que construir a relação de confiança. O ``capital social'' [Bourdieu 2000] não é um fim em si mesmo, e se o conhecimento técnico deixasse de cumprir esse papel, muito provavelmente outros mecanismos se estabeleceriam. Até porque, mesmo hoje, alguém que já tenha a capacidade técnica continua precisando estabelecer a relação de confiança antes de poder se tornar um desenvolvedor.
Dito isso, e finalmente chegando à conclusão desse trabalho, ousaria dizer que seria mais preciso identificar a Debian com um neologismo (ousando mais uma vez): ``Pisticracia'', do grego pisti: fé, confiança, ou seja, um governo da confiança.
Daniel Ruoso 2006-07-24