O evento ocorrido no mês de janeiro de 2006 mobilizou ao longo do mês, 33 mensagens54 em um único thread55 a partir do dia 6 de janeiro na lista debian-devel (veja a figura 4). Flame-wars não são para a Debian nenhuma novidade, esse em particular não causou maiores danos e não se estendeu tanto quanto outros com uma maior relevância histórica para a comunidade, no sentido que causaram uma conciliação ou um rompimento importante [Turner 1974]. No entanto, esse evento aconteceu em um momento quando a relação entre o projeto Debian e o projeto Ubuntu56 estava em discussão, e fez parte do amadurecimento da relação entre os dois projetos. Mas o que faz eu me debruçar sobre esse evento específico é a temática que ele trabalha. A abordagem da relação com contribuidores novatos, a afirmação da questão da liberdade por sobre os diferenciais de funcionalidade. Dessa forma, esse evento propicia a essa pesquisa uma oportunidade de lançar luz sobre as questões que quero colocar.
Seguindo a pista de [Foucault 2004], pretendo analisar, a partir desse micro-evento, de que forma as relações de poder se imprimem nessa comunidade. Também sigo a pista de [Bourdieu 2000] na medida em que reconheço a Debian como um campo de relações com suas regras específicas. Também é importante a leitura de [Sahlins 1990] para perceber que em eventos como este que irei tratar, afirmam-se, reafirmam-se e resignificam-se valores, a partir de indivíduos sócio-históricos que têm em suas mãos o poder de resignificar seus próprios conceitos.
Launchpad é uma ferramenta de produtividade do projeto Ubuntu, que reune informaç oes sobre um aplicativo que estão espalhadas em diferentes lugares da internet, como diferentes distribuições do Linux, sistema de gerenciamento de bugs do upstream57 e mecanismos para facilitar os trabalhos de tradução.
Ubuntu's launchpad is amazing. Do you think it would be helpful if all DD's worked through it on their projects? Wouldn't that keep things more organized and efficient? Or perhaps Debian could build its own version of launchpad which is better. Again, I think it would do a good job keeping everything organized an efficient.58[TRADUÇÃO:O Launchpad do Ubuntu é fantástico. Vocês acham que seria de ajuda se todos os DDs trabalhassem através dele nos seus projetos? Não ajudaria a manter as coisas mais organizadas e eficientes? Ou talvez aa Debian poderia construir a sua própria versão do launchpad, o que seria melhor. Novamente, eu acho que ele faria um bom trabalho em manter tudo organizado e eficiente.]
(mensagem A da figura 4)
É possível que a velocidade com que o thread se desenvolveu tenha sido intimidadora por si só, mas o fato é que essa foi a única mensagem enviada por Frans em todo o episódio. Pensando a partir de [Goffman 1974], Frans tinha ``perdido a face'', o papel que ele ``encenava'', mesmo que ``sinceramente'' foi rapidamente desmontado. Em menos de 1 hora, 5 mensagens haviam sido enviadas, e todas negavam a questão:
Launchpad is currently non-free, so it doesn't seem terribly likely. (Matthew Garret)[TRADUÇÃO:Launchpad é atualmente não-livre, então realmente não parece possível (Matthew Garret)]
AFAIK Launchpad is not free software, so it's not going to happen. (Eric Dorland)[TRADUÇÃO:Pelo que eu sei, o launchpad é software não livre, então não vai acontecer. (Eric Doland)]
I refuse to tie any part of Debian that I work on to a system where the code isn't Free. We can't reproduce launchpad ourselves without coding it up from scratch. If you want it in Debian, get hacking. (David Nusinow)[TRADUÇÃO:Eu me recuso a amarrar qualquer parte da Debian que eu trabalho a um sistema o qual o código não é livre. Nós não podemos reproduzir o launchpad sem escrevê-lo do zero. Se você o quer na Debian, comece a hackear. (David Nusivow)]
What the difference between this and alioth.debian.org? (Neil McGovern)[TRADUÇÃO:Qual a diferença entre isso e o alioth.debian.org? (Neil McGovern)]
(...)it isn't very fruitful to discuss "all DDs" using Launchpad, any more than Alioth or vim or zsh. They're tools which software developers can choose to use or not, and Debian isn't in the habit of mandating the use of certain tools on the part of its developers. Where Debian developers have chosen to standardize on certain tools, it's because a subset have found that those tools help them to work more efficiently, and Alioth and Launchpad are no different in this respect. Developers will choose to use them when and where it makes sense for them to do so. (Matt Zimmerman)[TRADUÇÃO:Não é muito produtivo discutir ``todos os DDs'' usando Launchpad mais do que o Alioth ou o vim ou o zsh. Estes são ferramentas que os desenvolvedores de software podem decidir usar ou não, e a Debian não tem o hábito de determinar o uso de certas ferramentas por parte dos desenvolvedores. Onde os desenvolvedores Debian escolheram padronizar em certas ferramentas, é por que um conjunto achou que aquelas ferramentas os ajuda a trabalhar mais eficientemente, e Alioth e Launchpad não são diferentes nesse respeito. Desenvolvedores vão escolher usá-los quando e onde fizer sentido para eles. (Matt Zimmerman)]
Nestas primeiras mensagens, a discussão parecia encerrada, um silêncio manteve-se na discussão por 12 horas. Dois aspectos tinham sido levantados: o da Liberdade e o da Funcionalidade. A temperatura da discussão estava ainda amena. Mas estava amena porque os dois aspectos não haviam sido confrontados. É preciso perceber que a questão das funcionalidades normalmente é um argumento utilizado por aqueles que argumentam a favor do software proprietário. O argumento é que apenas o modelo de desenvolvimento de software proprietário pode garantir o fornecimento de soluções de qualidade e com todas as funcionalidades necessárias.
Desta forma, quando se apresentaram separadamente os argumentos da usabilidade59 e da liberdade, a conexão entre eles não foi estabelecida. Os dois caminhos foram trilhados a partir da mensagem original e prosseguiam como discussões separadas, mas então, em uma mensagem dentro da discussão da funcionalidade, coloca-se a questão da liberdade.
In my experience of last week, some parts are still buggy; the software needs to mature a bit. I dream of the day I'll see patches from Fedora or Ubuntu one click away from the list of bugs of Debian packages.[TRADUÇÃO:Na minha experiência da semana passada, algumas partes ainda estão problemáticas; o software precisa amadurecer um pouco. Eu sonho com o dia que eu vou ver patches do Fedora ou Ubuntu há um click de distância da lista de bugs dos pacotes Debian.]
(I don't think the "non-free" argument is here of importance considering it's a web service, in the same way as Google or buildd.net. I shall get flamed for these remarks.) (Loïc Minier)
[TRADUÇÃO:(Eu não acho que o argumento ``não-livre'' é aqui de importância considerando que é um serviço na web, no mesmo sentido que o Google ou buildd.net. Eu posso ser queimado por essas observações) (Loïc Minier)]
(mensagem B da figura 4)
Finalmente, nessa mensagem os dois aspectos são confrontados. É claro que para a Debian a questão da liberdade é um ponto crucial, mas se trazia um fato diferente: Esses critérios de liberdade devem ser aplicados também a serviços prestados por terceiros?
As long as Debian doesn't want to build its own launchpad, sure.[TRADUÇÃO:Desde que a Debian não queira construir seu próprio launchpad, certamente.]
But the non freeness prevents us building such infrastructure on our ownn machines. (Christian Perrier)
[TRADUÇÃO:Mas o fato de ser não livre nos impede de construir essa infra-estrutura nas nossas próprias máquinas. (Christian Perrier)]
Antes de prosseguir, gostaria de parar um pouco para pensar sobre o que foi afirmado aqui. Quero chamar atenção para um detalhe da primeira mensagem:
Do you think it would be helpful if all DD's worked through it on their projects?[TRADUÇÃO:Você acha que seria de ajuda se todos os DDs trabalhassem através dele nos seus projetos?]
Acredito que não preciso reforçar que a questão da liberdade se coloca de forma muito clara, mas quero chamar atenção sobre dois trechos em especial:
They're tools which software developers can choose to use or not, and Debian isn't in the habit of mandating the use of certain tools on the part of its developers.[TRADUÇÃO:Eles são ferramentas que os desenvolvedores de software podem escolher usar ou não, e a Debian não tem o hábito de determinar o uso de certas ferramentas por parte de seus desenvolvedores.]
We can't reproduce launchpad ourselves without coding it up from scratch. If you want it in Debian, get hacking.[TRADUÇÃO:Nós não podemos reproduzir o launhpad nós mesmos sem escrevê-lo do zero. Se você o quer na Debian, comece a hackerar.]
Especialmente quando Frans utiliza ``all DD's'' é como se ele esperasse que a partir daquele email pudesse se estabelecer uma regra, uma política que todos os DD's60 aceitassem. A resposta no primeiro trecho nega de forma clara essa possibilidade. E a segunda lança a responsabilidade sobre a sugestão para o autor da mesma.
Talvez esse seja o aspecto fundamental para que Frans não voltasse a responder nesse tópico: A própria idéia de uma sugestão dessa natureza pareceu, então, errada, e o fato de não saber que aquele aplicativo não era Software Livre, parecia, então, uma gafe: Sua face definitivamente havia se perdido [Goffman 1974].
Um ``capital social'' [Bourdieu 2000] parece especialmente relevante nessa comunidade, como podemos observar a partir desses três trechos de conversação: A habilidade de realizar esse tipo de atividade técnica seja de construir um aplicativo comparável ao Launchpad, seja de colocar um serviço desses no ar.
O último trecho aparece então como um desafio, no qual o único que tem algo a ganhar ou a perder é aquele que é desafiado. Aquele que desafia, o faz na posição de manutenção do status-quo, aquele que é desafiado fica na posição de se recolher ou de dar uma resposta à altura, providenciando a sua realização.
Acredito que é possível afirmar que se imprimiu um mecanismo de controle (no sentido de [Foucault 2004]) importante da comunidade Debian. A Debian não permite que aqueles que não fazem queiram dizer como aqueles que fazem devem trabalhar. Se você acredita que uma determinada idéia é interessante você deve apresentá-la, mas deve apresentar também a sua implementação. E ainda assim, sua idéia passará pelo julgamento do conjunto de Desenvolvedores como um todo para saber se ela poderá ou não se tornar um padrão.
Acredito que a continuação deste episódio poderá evidenciar isso de algumas outras maneiras.
Andrew Suffield era um desenvolvedor61 que mantinha constantemente posturas controversas. Em outra oportunidade ele já tinha sido repudiado publicamente por outros desenvolvedores, e é preciso admitir, em bom português, que ele não tem papas na língua.
Para não cometer uma injustiça, não irei fazer a narrativa cronológica desses acontecimentos, uma vez que só no final da discussão foi possível compreender corretamente o que estava sendo dito, e como a uma análise da linguagem do flame-war seria objeto de uma outra pesquisa, irei simplificar a narrativa.
Andrew Suffield tenta levantar a questão de que a falta de acesso aos códigos-fonte da plataforma em questão traz um prejuízo extremamente relevante. Naquele momento, o Launchpad não possuia interfaces alternativas à web, de forma que era necessário utilizar um navegador para boa parte das atvidades. A questão principal que Andrew tentou levantar (o que, infelizmente, só é possível entender com clareza no final do thread) é que sem acesso aos códigos-fonte, ele não poderia implementar os mecanismos para criar as alternativas. Misture isso com um pouco de ironia, sarcasmo e agressividade e você chega ao seguinte:
The day when working on Debian requires the use of a web interface will be the day that I hunt down and painfully kill the person responsible for doing it.[TRADUÇÃO:O dia que trabalhar na Debian requerer o uso de uma interface web vai ser o dia que eu vou caçar e matar dolorasamente a pessoa responsável por fazer isso.]
Removing the ability to manage things from the shell would not be more organised and efficient unless you're a complete fricking moron who can't operate a unix host. Which appears to be the target audience of launchpad.
[TRADUÇÃO:Remover a habilidade de gerenciar as coisas pelo console não será mais organizado e eficiente a não ser que você seja um completo retardado esquisito que não consegue operar uma máquina unix. O que parece ser o público alvo do launchpad]
We're working with the real stuff here, not kids toys. Web interfaces don't scale to the level at which we have to work *all the time*. Just ask the BTS admins what happens when somebody scans http://bugs.debian.org/ to collect data.
[TRADUÇÃO:Nós estamos trabalhando com coisas de verdade aqui, não brincadeiras de criança. Interfaces web não têm escalabilidade no nível que nós precisamos trabalhar *o tempo todo*. Apenas pergunte aos administradores do BTS o que acontece quando alguém escaneia http://bugs.debian.org/ para obter dados.]
Oh, and hey - when SuSE are doing better than you at publishing the tools they use, it's a hint that maybe you suck.
[TRADUÇÃO:Oh, e hei - quando a SuSE está fazendo um trabalho melhor que vocês em publicar as ferramentas que eles usam, é uma dica que talvez vocês sejam uns merdas.62]
(mensagem C da figura 4)
É importante perceber que a postura de Andrew é confusa, mas se você filtrar o sarcasmo, a ironia e a agressividade o que sobra é: ``Removing the ability to manage things from the shell would not be more organised and efficient'' (tudo bem, agora fui eu quem fui sarcástico, mas esse comentário é o ponto que quero levantar).
Se relacionarmos o fato de que o Launchpad ainda não tinha todas as ferramentas para possibilitar que seja utilizado em um ambiente heterogêneo como a Debian, com o fato que a sugestão tinha a cara de uma norma (``all DD's'') e com o fato do Launchpad não ser Software Livre, a oposição de Andrew faz sentido.
No entanto, tínhamos mais um flame-war. Basicamente Andrew Suffield, Stephan Hermann e Matthew Palmer travaram uma batalha, na maior parte do tempo lidando com animosidades mútuas, mas acredito que alguns trechos podem ser destacados:
If we are not thinking about the people, who can't handle the console, or are not able to fullfill simple tasks with the cli63, for those people we need at least another way. If Debian never followed this example, well I think there wouldn't be a webinterface for Debian BTS at all and all the informations of debian on the webpage, we would find in gopher or txt files which i have to search with archie. (Stephan Hermann)[TRADUÇÃO:Se nós não estamos pensando sobre as pessoas que não conseguem lidar com o console ou não estão aptas a realizar tarefas simples com a cli, para essas pessoas nós precisamos pelo menos um outro jeito. Se a Debian nunca seguisse esse exemplo, bem, eu penso que que não haveria uma interface web para o Debian BTW e todas as informações da Debian no site, nós encontraríamos no gopher ou em arquivos txt que eu teria que procurar com o archie (Stephan Hermann)]
As far as I can see, you are the only person who has brought such thinking to this thread. The rest of us are objecting to your claims that we should be forced to work in the manner used by the most incompetent user you can find.[TRADUÇÃO:Até onde pude ver, você é a única pessoa que trouxe esse pensamento para esse thread. O resto de nós está refeitando os seus clamores de que nós devemos ser forçado a trabalhar da mesma maneira utilizada pelo usuário mais incompetente que você puder achar.]
I don't think anybody here (other than you) actually cares what method such users use, so long as it does not affect us. (Andrew Suffield)
[TRADUÇÃO:Não acho que alguém aqui (a não ser você) está na verdade preocupado com o método que esses usuários vão usar, desde que isso não nos afete. (Andrew Suffield)]
While your powers of persuasion may be super-human, the rest of us find it more productive to fix the damn bug and submit the fix upstream. That way, I get the fix *immediately*, the developers don't have to spend excess time just trying to understand the problem (before they can begin to fix it), and everyone benefits. (...)[TRADUÇÃO:Enquanto seus poderes de persuasão possam ser sobre-humanos, o resto de nós acredita que é mais produtivo corrigir logo o maldito bug e submeter a correção para o autor original. Desta forma, eu tenho a correção *imediatamente*, os desenvolvedores não precisam passar um tempo excessivo apenas tentando entender o problema (antes mesmo de poderem corrigí-lo), e todos se beneficiam. (...)]
That's even *before* you start talking about times when disagreement over what, or how, or when, or whatever. Freedom to fork, although one we don't *want* to exercise, is nonetheless a fundamental freedom. (Matthew Palmer)
[TRADUÇÃO:Isso é ainda *antes* de começar a falar sobre tempos onde discordancia sobre o que, como, ou onde ou seja lá o que. Liberdade de separar-se, mesmo que seja uma que não *queremos* exercer, é, sem dúvida, uma liberdade fundamental. (Matthew Palmer)]
The difference? I might use Google or Amazon for searching, might even give them my money - But my work is more important. I am a Google/Amazon _user_, but if we were to move to Launchpad, my role would be quite different - I would become a producer. And not being able to fully control what happens with the stuff I produce sucks - even more after having such control and knowing the history of the Free Software movement. (Gunnar Wolf)[TRADUÇÃO:A diferença? Eu posso usar o Google ou a Amazon para pesquisar, posso até dar a eles meu dinheiro - Mas o meu trabalho é mais importante. Eu sou um _usuário_ da Amazon/Google, mas se nós fossemos passar a usar o Launchpad, meu papel seria bem diferente - eu me tornaria um produtor. E não poder ter controle total com o que acontece com o que eu produzo é uma merda - ainda mais depois de ter esse controle e conhecer a história do movimento Software Livre. (Gunnar Wolf)]
Cabe-me agora explicar o porquê de ter escolhido esses trechos (peço que os mais interessados busquem ler a discussão na sua íntegra).
Acredito que posso considerar o flame-war como um ``evento''. Acredito que, como diz [Sahlins 1990], em um evento como esse são reafirmados valores importantes de determinada sociedade. E quero buscar essas afirmações nos trechos acima.
O primeiro trecho reflete uma preocupação que é muito mais frequente entre os grupos de usuário do que entre os grupos de desenvolvedores, que é o envolvimento de usuários menos experientes nas atividades de contribuição para com a distribuição. Se reconhecemos que o capital social dessa comunidade é a atividade técnica, o que resta para aqueles que não dominam essa habilidade?
Mais de uma vez surgiram iniciativas no sentido de dar um reconhecimento maior aos que contribuem de outras formas que não no desenvolvimento de aplicativos. Contribuições como tradução, documentação ou mesmo apenas divulgação da distribuição. Mas de uma forma ou de outra, acaba-se sempre mantendo a centralização em torno do trabalho de desenvolvedor.
O primeiro trecho traz à tona esse problema, uma vez que usuários menos experientes tendem a não dominar a interface de linha de comando, preferindo interfaces web ou gráficas mais intuitivas. No entanto, desenvolvedores mais experientes preferem o trabalho na interface de linha de comando por esta propiciar uma produtividade consideravelmente maior.
A questão que podemos colocar é o fato de que, por mais que algumas pessoas tenham manifestado o interesse em tratar da questão dos outros contribuidores, ninguém toma iniciativas que realmente busquem esse tipo de facilidade, pelo menos na Debian isso é bem mais raro e certamente é algo que vem sendo tratado pelo projeto Ubuntu.
Reconhecer a habilidade técnica de desenvolvedor como um ``capital social'' específico dessa comunidade pode nos ajudar a pensar também por que algumas pessoas tentam se engajar na atividade de empacotamento de um aplicativo apenas para poder demonstrar que pode exercer essa atividade.
O segundo trecho confirma essa análise, quando diz que não tem nada contra o fornecimento de alternativas de interface para usuários menos experientes, desde que isso não afete o desenvolvedor mais experiente. A lacuna que fica é: Se o desenvolvedor mais experiente é aquele que monta ferramentas para que todos utilizem e não tem motivação para trabalhar em ferramentas mais intuitivas, quem irá fazê-lo?
Também é preciso notar que a Debian buscou formas alternativas de envolver desenvolvedores menos experientes, através de ferramentas como o Alioth64, através de iniciativa como o ``Team Maintainance''65. Isso tem aproximado desenvolvedores menos experientes da Debian, mas talvez a postura de não se preocupar em facilitar a vida deles cause algum embaraço, como podemos ver em um outro trecho:
People who can use the CLI are blessed, but leaving the others behind? No, elite thinking was yesterday, today is, how we can gather more people around a project, to work on. the more people we can gather, the faster we will accomplish goals. (Stephan Hermann)[TRADUÇÃO:Pessoas que podem usar o CLI são abençoadas, mas deixar os outros atrás? Não, pensamento elitista foi ontem, hoje é, como podemos agregarmais pessoas ao redor de um projeto, para trabalhar nele. Quanto mais pessoas nós reunirmos, mais rápido vamos atingir nossos objetivos. (Stephan Hermann)]
(mensagem D da figura 4)
Aparece claramente aqui pela utilização de termos e expressões como ``blessed'' e ``leaving the others behind'' claramente a diferenciação do desenvolvedor experiente (o abençoado que consegue usar a linha de comando) e os outros (que precisam correr atrás). A própria manifestação desse discurso já demonstra o interesse em uma postura diferente, e um desconforto com a postura atual. No entanto, a Debian prefere afirmar o fazer. Ohando para a figura 4 podemos ver que a mensagem D causou um novo aquecimento no thread. A afirmação dessa mensagem precisou ser categoricamente desconstruída. Na verdade, não importa se você é novato ou não. O que importa é o quanto você está disposto a se empenhar. A sua disponibilidade de aprender a trabalhar com essas linguagens específicas é uma boa medida do seu esforço. Imprime-se assim um mecanismo de controle da Debian [Foucault 2004].
Catering for the masses is fine, but only if it doesn't drive away the "elite few" who typically actually spend the hard yards doing the work. (Matthew Palmer)[TRADUÇÃO:Trabalhar para as massas é ok, mas somente se isso não afasta os ``poucos da elite'' que tipicamente gastam as horas mais duras fazendo o trabalho. (Matthew Palmer)]
O thread então perde a sua força, e no dia 9 de janeiro é postada a última mensagem da discussão. Afirmou-se mais uma vez a relevância do conhecimento técnico como ``capital social'' [Bourdieu 2000], afirmou-se que não é pela pressão de indivíduos que a Debian irá adotar uma ou outra ferramenta e principalmente, afirmou-se que aquele que acredita em uma idéia não vai conseguir que ela seja realizada apenas ao falar - e nesse caminho algumas faces se perderam [Goffman 1974]. Para que algo aconteça, é preciso que alguém faça.
Daniel Ruoso 2006-07-24